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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O cancro e os nossos animais

Os mesmos autores da série The Truth about Cancer lançaram agora a série The Truth About Pet Cancer
Os nossos animais de estimação, tal como nós, morrem de cancro em números muito superiores áqueles de algumas décadas atrás.
Há veterinários que afirmam que mais de metade dos seus pacientes morrem de cancro.

O que causa esta mortandade canina e felina sem precedentes? É simples: o mesmo que faz com que cada vez mais humanos morram de doenças oncológicas, ou seja, o ambiente, a água e a alimentação. Os poluentes do ambiente como os pesticidas e os metais pesados, os químicos da água, como o fluór e o cloro, e a comida seca - feita de cereais e proteína de baixa qualidade e que, nalguns casos é constituida por mais de 50% de açúcar - levam-nos os nossos queridos de quatro patas, depois de muito dinheiro gasto em veterinário, e sobretudo depois de muito sofrimento. 
Para os tratar a escola clássica de veterinária oferece a «chapa três», a mesma que é oferecida aos humanos: cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Estas duas últimas são altamente tóxicas e mesmo cancerigenas, como já aqui foi explicado e os animais, por vezes depois de algumas melhoras, morrem prematuramente, enquanto a oncologia veterinária factura.
Porém, cuidar da alimentação dos bichos, oferecendo-lhes alimentação crua e água filtrada pode ajudar a prevenir e mesmo a curar o cancro.


Ziggy
Há um ano o meu gato Ziggy definhava. A veterinária que o castrou aos seis meses havia-me dito: «como é um macho dê-lhe latas e carne crua senão terá problemas renais». Achei interessante, já que outros veterinários sempre me disseram que os secos é que são bons. Apesar de lhe dar uma boa ração e um pouco de comida húmida, o bicho não estava bem. Foi então que me comecei a informar e percebi que a comida seca é em grande parte feita de cereais! Ora os gatos, ao contrário dos cães, são obrigatoriamente carnívoros - precisam de comer carne. Quanto às latas saem caras e não sabemos o que lá vem dentro - há inclusivé marcas que os meus gatos se recusam a comer. Comecei então a fazer uma receita de carne crua (peito de frango ou perú, coração, figado, gelatina, pó de casca de ovo, óleo de salmão e vitamina B) e o bicho está óptimo. Espero que esta dieta ajude a conservá-lo longe do horror do cancro.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Contra a sarcopenia malhar, malhar



Sarcopenia é a perda de força e massa muscular que geralmente acontece com o envelhecimento. A partir dos 50 anos o corpo tende a perder 0,5 a 1 % de massa muscular por ano. A falta de força é responsável por quedas, e a de massa muscular por problemas nas articulações e tendões, que deixam de ter sustento. Manter o músculo é fundamental, tanto mais que, com a idade, pode também acontecer a perda de massa óssea ou osteoporose. Se bem que esta última condição seja muito discutida pelos médicos e divulgada pelos média, a sarcopenia é menos estudada e conhecida. Ora, a falta de músculo nas pessoas de idade, é o que vai provocar a queda que quebra o osso enfraquecido.

Com a aplicação do «protocolo», os médicos colocaram-me em pós-menopausa de um momento para o outro. Actualmente o meu corpo está a perder massa muscular a um ritmo que não consigo bater – tenho os músculos dos braços e das pernas (eram o meu orgulho!) cada vez mais flácidos e as minhas vértebras estalam constantemente (hoje acordei com uma delas fora do sítio e quase nem consigo respirar, tenho de ir ao osteopata).



O problema nem é o facto de há um ano eu ser uma cinquentona com ar de ter dez anos a menos e hoje ser uma cinquentona que parece ter dez a mais – que se lixe a estética – o problema é que os meus músculos não me estão a sustentar o esqueleto e os tendões: as velhas tendinites não passam, os osteófitos (bicos de papagaio) fazem-se sentir, a hérnia lombar faz-me passar as manhãs na cama com um saco de água quente.

Por isso, se tiverem cancro e poderem evitar a quimioterapia, façam-no (não se esqueçam que 46% das mulheres, com um a três gânglios afectados, sujeitas a quimioterapia não precisavam do tratamento segundo o ensaio clínico MINDACT, de 2016, que aqui já referi). Façam perguntas aos médicos, peçam respostas, tentem perceber para que vai servir a quimioterapia no vosso caso (a mim disseram-me que era para reduzir o tumor – resposta ridícula, uma vez que a mama e os gânglios iam ser todos retirados, que importava se tinha cinco ou quatro centimetros, tanto mais que não era, à partida, o tipo de tumor para diminuir muito). E recusem, se esse tratamento não for fundamental, ou preparem-se para a consequente perda de qualidade de vida e, mesmo, de anos de vida que dele resultará.





Bom, mas agora está feito…se foram sujeitas a quimio e consequentemente vos esterilizaram, tendo entrado numa pós-menopausa súbita e precoce as chances são que comecem a perder massa e força muscular de forma mais intensa do que o normal processo de envelhecimento.

Como recuperar, pelo menos alguma massa muscular? As fontes onde encontrei melhor informação sobre o assunto são aqueles sites para os homens que querem desenvolver grandes bíceps para mostrar às meninas. Claro que meti de lado aqueles que aconselham esteroides anabolizantes e suplementos que podem interferir com a prevenção do cancro da mama. Mas alguns como este, parecem-me ter conselhos correctos. Basicamente o que há a fazer é malhar e ingerir mais proteína.

Mas nem todo o tipo de exercício é ideal. Exercícios como correr ou nadar criam músculo mas gastam calorias, energia que devia estar a ser concentrada no ganho de músculo. Portanto, o ideal é mesmo levantar peso. Podem ser exercícios com pesos ou máquinas ou com o próprio peso do corpo. Pelo menos três vezes por semana. É importante fazer exercícios para todos os grupos musculares (não querer ficar como alguns dos homens que estão ao vosso lado a levantar alteres de 300 quilos, com muito tronco e pernas fininhas) e ir aumentando sempre o peso, de forma a aumentarem a tensão muscular e a ficarem doridos no dia seguinte (sim, doridos, os músculos têm de ser sujeitos a um stress metabólico para se reconstruírem e aumentarem). Senão, é apenas um exercício para «tonificar»… Ora, nós não queremos tonificar nada, queremos ganhar músculo, deixar de ser parecidas com a Olívia Palito e ficar na classe do Popey.





Outro aspecto importante é a dieta: é importante comer bastante proteína e comer várias vezes ao dia. Se não comemos perdemos massa corporal – sim podemos perder alguma massa gorda mas a muscular também se vai! No meu caso, que não tenho massa gorda para perder, vai-se o músculo.

Esse é um dos meus calcanhares de Aquiles – estar muitas horas sem comer, a trabalhar, em stress. Ora convém comer pelo menos cinco vezes por dia e incluir proteína nessas refeições. Mas cuidado para que esta dieta não choque com a vossa dieta de prevenção do cancro da mama (ver meu post de 7 de Abril).

É preciso, por exemplo ter cuidado com os suplementos: o ideal é ir buscar a proteína aos alimentos: às sementes (linhaça, canhâmo, chia), aos legumes secos, aos ovos, aos peixes e a algumas carnes. Se optarem por suplementação tenham muito cuidado (refiram-se ao Food for Breast Cancer para perceber se os compostos podem ser prejudiciais para o vosso tipo de cancro da mama). Se optarem por um composto proteico evitem o whey – a proteína de soro de leite – e invistam na proteína vegetal, como a de ervilha por exemplo.

Para mim o mais difícil é disciplinar-me para comer mais e mais vezes e malhar…. Adoro ioga, surf, nadar, caminhar e andar de bicicleta mas ir para dentro de quatro paredes fazer máquinas na companhia do body builder que se atira às «garinas» não é o meu prato. Mas lá terá de ser.

sábado, 3 de junho de 2017

A reconstrução

Um estudo americano de 3 de Maio último salienta que metade das pacientes de cancro da mama se queixa de falta de informação sobre a reconstrução. Se bem que o estudo seja sobre uma instituição hospitalar específica, penso que traduz o que se passa em muitas outras, nomeadamente naquela em sou tratada. Foi aliás a falta de informação sobre a reconstrução que me levou a esta pesquisa e blog.

Informação sobre a reconstrução com os próprios tecidos, por exemplo. A mim foi-me negada, uma vez que não tenho gordura, disseram-me. É para aquelas que têm barriga ou rabo suficientes (se bem que a operação com as partes traseiras não seja muito popular cá porque exige muito trabalho de microcirurgia).

Sobretudo, cuidado com essa cirurgia da barriguinha - pode causar hérnia, uma vez que enfraquece o músculo abdominal. Hoje já se fazem cirurgias com tecidos próprios, sem usar músculo (existem,por exemplo, tecidos artificiais que sustêm a nova mama formada com gordura da própria e/ou prótese de silicone). Mas disso não me falou nenhum médico…
Retropeitoral clássica - primeiro o expansor, depois a prótese de silicone.
Depois existem as técnicas reconstrutivas com recurso a prótese. Como já aqui referi no post de 24/04/17, a reconstrução mais frequente no hospital público de referência onde sou tratada é a que utiliza o músculo dorsal – o latissimus dorsi – para suster a prótese (procurem dorsi flap no breastcancer.org). Compreende-se, poupa-se dinheiro; de uma só vez efectua-se a mastectomia, reconstrói-se a mama e no caso de ser poupado, coze-se o mamilo. Se tentarem «impingir-vos» esta reconstrução tenham em atenção o seguinte: com a radioterapia subsequente a prótese pode encapsular. Conheço vários casos, um deles uma prima que há três anos aguarda uma solução para a pedra que tem no peito, bem como o de uma conhecida que vai na sétima cirurgia para resolver umprobelma semelhante
Patologias da coluna ou costas são outro motivo para recusar o corte do dorsal.
Como já aqui referi, acho incompreensível que com os problemas óbvios que tenho nas costas, os cirurgiões me tenham tentado impor esta técnica de reconstrução. Com uma outra prima aconteceu o mesmo num hospital privado – queriam usar o grande dorsal «à força». Mas, no caso dela, foi a fisioterapeuta que se opôs: nem pensar com os problemas que tem na coluna.

Consultem o fórum da breastcancer.org sobre o assunto. Algumas mulheres ficam com problemas graves nas costas e com a mobilidade do ombro seriamente comprometida (como se  nalguns casos, como o meu, não bastasse o esvaziamento axilar para tal).
Ás vezes, as escolhas mais conservadoras são as melhores como a reconstrução chamada retropeitoral, usando um expansor (ou prótese, que pode ser enchida) por trás do músculo peitoral, faseada. Um dos cirurgiões do público disse-me que só fazia 40 destas por ano mas 400 das do latissimus. Supostamente a retropeitoral seria reservadas para mulheres fumadoras ou com outros problemas. Mas foi essa que escolhi.
No entanto, no hospital privado, o cirurgião plástico (professor universitário como eu, especialista na matéria) propôs-me, precisamente, usar o peitoral, de forma faseada: 1º - mastectomia sem reconstrução para que não houvesse encapsulamento durante a radioterapia, 2º - expansor, 3º - prótese de silicone, 4º mamilo (caso não se salvasse). 

Resumindo, existem vários tipos de reconstrução: 

1.Com tecidos próprios retirando músculo de outras partes do corpo (das costas, zona abdominal ou coxas) e que podem incluir implante ou não. Também existem operações que não usam músculo mas são mais complicadas, exigem microcirurgia e não são oferecidas em todos os hospitais. Mas são preferíveis. Vejam por exemplo o DIEP Flap (usa tecidos do abdómen mas não músculo) ou o Body Lift Perforator Flap, indicada para as magras, retirando gordura da barriga e das coxas.

2. Utilizando expansores e próteses, como a retropeitoral. Os expansores são geralmente de solução salina e as próteses podem ser mistas (solução salina e silicone, o que implica uma só operação - o implante vai sendo expandido) ou só de silicone.

 
DIEP Flap - reconstrução com tecidos do abdómen usando a artéria epigástrica inferior sem usar músculo.
Reconstrução com implantes.
A obra Reconstrução Mamária - a Escolha é Sua traduzida e adaptada pela Laço pode ser útil, mas para técnicas mais recentes a breastcancer.org é a melhor referência (vejam a tabela com a comparação das vantagens e desvantagens dos diferentes tipos).

Com o expansor há seis meses, tenho vivido os últimos três com uma mama mais pequena que a outra, uma vez que o meu cirurgião esteve doente e o médico que o substituiu não me encheu os expansor. Recentemente, durante as filmagens de uma curta metragem, foi-me difícil de esconder a assimetria, sobretudo nas cenas em fato de banho e camisa de dormir. Faço trabalhos como performer e actriz. Espero que me resolvam este problema brevemente.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Combater a castração química: gravidez depois do cancro



Pedi aos vários oncologistas que me atenderam para não me colocarem em menopausa. Nenhum se preocupou com isso. Alguns entravam no consultório a dizer: «Então já está na menopausa não é?». Porque assumiriam que uma mulher de 50 anos estaria na menopausa quando esta pode acontecer tão tarde quanto os 56 ou 58? Levavam logo com um «Não, não estou, aliás a minha ginecologista diz que tenho uma excelente fertilidade para a minha idade». Sabendo que não tinha filhos, porque não me propuseram formas de preservar a fertilidade e de evitar uma menopausa súbita? Pura discriminação etária.

Com a quimioterapia uma mulher pré-menopausica perde a capacidade de gerar filhos. Os ovócitos são fortemente afectados, a reserva ovárica diminui. Sem ovócitos saudáveis, a menstruação desaparece, geralmente para sempre, se bem que haja excepções. Quanto mais perto a mulher está da sua idade de menopausa, mais probabilidades tem de entrar neste período da vida. E entra subitamente, sem o benefício de uma adaptação ao longo de vários anos.

Durante a quimioterapia comecei a ter dores no ovário direito. A meio do tratamento tive o último período. Até hoje, sete meses depois, não voltou. Recentemente comecei a ganhar peso sem motivo, a perder massa muscular, a ter gordura abdominal, pele seca e sobretudo muitas, muitas dores articulares.
O que fazer para preservar a fertilidade e juventude que a quimio nos tira? Não há nada a fazer a quimio representa a estirilização e a entrada na terceira idade que amenopausa implica. No entanto pode-se tentar preservar a capacidade de ter filhos, que é possível mesmo na menopausa.

1. Supressão ovárica. Envolve a toma de hormonas (os chamados agonistas de GnHR ou gonadotropin releasing agonists) que suprimem a função ovárica, induzindo a menopausa e protegendo assim os óvulos. O medicamento é o goserelin,  nome farmacêutico Zoladex (também se usa o leuprolide, o Lupron) e deve ser injectado uma vez por mês ao longo da quimioterapia. Embora os estudos mostrem que nem sempre este tratamento é efectivo, vale sempre a pena tentar (apesar de as hipóteses de funcionar serem maiores nas mulheres mais novas, estou arrependida de não o ter feito -  a única oncologista que referiu estas injecções por alto, disse-me que não valia a pena porque os resultados não eram cem por centro garantidos). Estas hormonas não devem ser tomadas mais de seis meses porque ao fim desse tempo os ossos começam a enfraquecer.

2- Recolha de óvocitos. Deve ser feita antes da quimioterapia por aquelas que mais tarde queiram engravidar. A recolha envolve uma estimulação hormonal prévia o que pode fazer crescer o tumor quando este é reactivo ao estrogénio e/ou à progesterona.

3- Crio-preservação embrionária. Se houver dador de esperma pode ser feita a fertilização in vitro dos ovócitos recolhidos e os embriões podem ser congelados para futura implantação.

3- Recolha de tecido ovárico. É crio-preservado antes da quimio e mais tarde é implantado para estimular a função ovárica permitindo reverter a menopausa. Sim, leram bem reverter a menopausa (o que eu mais queria neste momento). Mas é sobretudo útil para mulheres mais novas, que ainda tenham muitos óvulos. 



Encontrei bastantes artigos científicos (por ex. este, este e este) sobre a necessidade de preservação da fertilidade das pacientes de cancro que sublinham, logo no seu resumo, que estas não são informadas sobre a questão pelos médicos, embora nalguns países estes até sejam obrigados a fazê-lo por lei (não sei qual o caso em Portugal: a mim não me informaram).
Quanto à gravidez após a quimioterapia parece ser segura para as sobreviventes, segundo uma grande quantidade de estudos e sites especializados. A taxa de recorrência não é alterada pela gravidez. Porém aquelas que têm cancro da mama hormonal têm de considerar a percentagem de risco, pesando toda a informação sobre o seu caso (tipo de cancro, o Ki67, com ou sem gânglios afectados, margens deixadas após retirar tumor etc., toda a  informação que encontram nos posts sobre Diagnóstico).
Porém, se a gravidez não parece alterar a sobrevida, também é certo que muitas mulheres que têm o primeiro filho tardiamente, são sérias candidatas ao cancro da mama. Conheço pessoalmente alguns casos.
Na minha opinião as pacientes de cancro da mama têm de equacionar a relação entre a quimioterapia e a perda de fertilidade/menopausa antecipada e decidir se esse tratamento é realmente necessário no seu caso concreto. Ensaios clínicos como o Mindact (2016), que já aqui referi, concluíram que há um abuso da administração da quimioterapia às pacientes de cancro da mama. Peçam ao médico um teste clínico como o Adjuvant! ou um teste genómico como o MamaPrint. Expliquem que querem preservar a vossa fertilidade ou simplesmente que não querem entrar em menopausa forçada. Mesmo que tenham 50 anos!
Uma amiga descobriu que estava grávida ao mesmo tempo que teve uma recidiva do cancro da mama. Muitas mulheres tratam o cancro da mama durante a gravidez, inclusive com quimioterapia, como essa amiga.
No entanto, continuam a praticar-se horrores: há médicos que fazem um aborto na mesma operação em que fazem a mastectomia, antes de iniciarem a quimioterapia que vai impedir essa mulhere de ter filhos. Vejam, neste fórum, o caso desta mulher de 30 e poucos anos grávida de dez semanas quando soube que tinha cancro. Foi-me relatado por um amigo um outro caso: um médico tentou obrigar a filha grávida de três meses e meio a abortar quando esta descobriu que tinha cancro. Ela recusou-se. Mais tarde foi sujeita a uma mastectomia e hoje ambos estão de saúde, mãe e bébé.
Dar vida quando a morte nos ameaça é uma bênção e algo que não nos devia ser negado.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Andar em Frente

Andar em Frente, documentário de Helena Inverno e Verónica Castro passou na RTP, na passada terça-feira dia 7 de Março. Pode ser visto no portal da RTP aqui.
Sinopse:«Mulheres, maridos e filhos rompem o silêncio ao partilharem de forma íntima, comovente e corajosa as suas experiências sobre o cancro da mama. Realizado inteiramente no Baixo Alentejo, ANDAR EM FRENTE é um filme que nos revela surpreendentemente que o cancro da mama muitas vezes é um começo de vida.»



Depoimentos na primeira pessoa sobre a experiência do cancro da mama. É interessante ver a maneira diferente como as mulheres encaram a doença: umas escondem-se em casa, outras continuam a sua vida, na medida do possível. Algumas, passado o susto vão para os bailes cantar e dançar, que a vida é curta. Eu tendo mais para esse segundo tipo, gaiteira.
Penso que incluir um pouco da vida do dia a dia dessas mulheres, em vez de apenas usar as entrevistas, teria tornado o documentário mais rico.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Um colchão novo porque lá se foi a mama



Deitar cansa. Muito. Foi o que descobri nestes últimos tempos. Deitei-me em N camas para descobrir o colchão adequado para os problemas que resultaram da mastectomia radical modificada.
Foram dias cansativos a caminho de grandes lojas e centros comerciais, a deitar e levantar, noites a procurar informação sobre o assunto na internet. Entre essa busca desesperada e o Carnaval (a minha festa «católica» preferida) pouco tempo sobrou para este blog. Busca desesperada porque já não aguento o colchão de molas duro, do tipo ortopédico, onde durmo.
Com o esvaziamento axilar à direita fiquei proibida de dormir para esse lado. Ora, era precisamente para esse lado que mais dormia, alternando um pouco com o esquerdo. Nunca dormi de barriga para cima. Com uma tendinite no ombro esquerdo – agravada pelo facto de, pós-operação, ter de carregar todos os pesos e fazer todos os esforços desse lado – tornou-se imperativo encontrar um colchão mais suave e adaptável. A ideia inicial era simples – aproveitar os saldos de Fevereiro e comprar um colchão de molas com uma camada de viscoelástico fofinho. Mas assim que me desloquei a uma loja de colchões percebi que a coisa não era assim tão fácil: a oferta é muito diversificada e a escolha muito difícil.

Acabei por reunir as seguintes exigências que serão eventualmente semelhantes para outras mulheres sujeitas a esvaziamento axilar:
1ª – Adaptabilidade, uma vez que dormimos para um só lado, lado que é massacrado durante as 7 ou 8 horas de sono (as que dormem de barriga para cima precisam de bom apoio para a coluna, sem ser duro, no entanto);
2ª – Frescura, porque a maldita quimio coloca-nos em menopausa com os fogachos correspondentes (eu sempre transpirei muito de noite, de qualquer modo);
3ª – Se dormem com companheiro/a, um sistema que, quando se mexem com as insónias da menopausa não acorde o/a desgraçado/a e que suporte bem o seu peso caso pese muito mais (como acontece com os machos). E já agora, uma superfície onde seja fácil voltarem-se quando estão a fazer «desporto» na cama.
Para o requisito número 1 temos a memory foam (viscoelástico) desenvolvida pela NASA para os astronautas e adaptada pela Tempur aos colchões (caríssimos) e que é comercializada em versões sem qualquer qualidade por gato-sapato. É espuma e, portanto, tende a ser quente. Temos ainda o látex (quente) e as molas ensacadas que fazem colchões frescos que servem também o propósito 3º - adaptam-se ao corpo sem disturbar o parceiro mas precisam de algo fofo por cima.
Portanto, o ideal é um colchão de molas ensacadas (quanto mais molas melhor) com viscogel (uma versão mais fresca do viscoelástico) por cima e um tecido de algodão ou algo natural a terminar. Não foi fácil, mas encontrei um modelo exclusivo de uma loja representante da Molaflex com estas características, o «Aruba».

Só que, entretanto, resolvi investigar as espumas porque há uns anos, quando fiz estudos de doutoramento em Barcelona, dormi uns meses numa cama de látex e nunca dormi tão bem. Porém o látex parece estar ultrapassado (uns dizem que é muito quente outros que é duro mas na realidade a firmeza é variável). O Bultex é um outro sistema de construção de espumas, já com décadas, que as faz menos quentes. Adorei a adaptabilidade firme dos colchões de Bultex e estive quase para comprar um modelo da Pikolin com viscogel por cima. Mas, por fim, cometi a loucura total e, contra o meu melhor julgamento, comprei um colchão de viscoelástico! Mas atenção: um topo de gama da Colunex, o colchão que é o ex-libris da companhia portuguesa e que a minha fisioterapeuta me aconselhou (ela dorme num igual). Pedi o máximo de densidade (D70) – é firme quando me deito mas imediatamente se adapta às curvas, sobretudo aos meus muito maltratados ombros. Parece que estou nas nuvens….
Enquanto o bem desejado não chega (12 dias para a entrega) já não sei o que fazer para dormir: experimentei dormir no sofá cama: caia para o centro do dito porque faz cova; coloquei uma espuma por cima do colchão ortopédico: não dormi com calor, a transpirar em bica. Acabei por pôr um edredão por cima do colchão, a fazer uma camada suave, a ver se me aguento (ando a cair de sono) até chegar a nuvem fofa dos céus.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

E a comida, senhor doutor?




Impressiona-me a indiferença relativa à dieta de todos os oncologistas por que fui atendida (no hospital público foram seis consultas/seis internos durante a quimioterapia) e dos próprios hospitais ou secções de oncologia, que não têm qualquer tipo de aconselhamento sobre este assunto. Apenas uma médica, num hospital privado, me fez uma referência alimentar: disse-me para não comer soja.
Este ignorar do papel que a dieta tem no cancro apesar dos inúmeros estudos científicos que demonstram uma relação, é incompreensível.
Ontem vi na SIC uma excelente reportagem sobre o excesso de açúcar e as doenças que provoca nas crianças. É pena não se ter visto este tipo de informação nos media há dez ou quinze anos, uma vez que não se trata de nada de novo. Tinha-se evitado tantos casos de obesidade, diabetes, doenças coronárias, cancro.
Porém, nessa altura, a atitude era a aceitação da obesidade - os gordos também têm direitos, as gordas são giras, a Popota é que é boa, etc. Finalmente, e ao fim deste tempo todo de excessos consumistas, a gordura é vista como aquilo que é: uma doença. E o açúcar é criminalizado.
Compete ao médico dizer aos pais que não dêem açúcar às crianças e ensinar onde ele se encontra encoberto (Coca-Cola, Ice Tea, sumos de pacote, lasanha, pizza, cereais de pequeno almoço)? Ou o clínico está lá só para receitar os medicamentos para a diabetes, feito o estrago? O mesmo se aplica ao cancro: preveni-lo através de uma educação alimentar ou apenas tratá-lo quando instalado? Não deveriam instituições como o IPO ou a Fundação Champalimaud, por exemplo, apostar na informação dietética generalizada, de forma a que chegasse a todos, sobretudo aos menos instruídos?
Isto porque, quer os senhores doutores queiram, quer não, há alimentos que estão intimamente ligados ao cancro e à sua recorrência e outros à sua cura. Há inclusive alimentos que são adjuvantes de terapias clássicas como a radioterapia e ou a terapia anti-hormonal.
Parece haver hoje muitos médicos que para além de se terem gananciosamente esquecido do juramento de Hipócrates, ignoram uma das suas citações mais conhecidas: «Que a comida seja a tua medicina e que a tua medicina seja a tua comida».

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Jogos de azar



Às vezes do tratamento do cancro parece a lotaria ou jogo de sorte e azar. Os médicos invocam a ciência mas depois desculpam-se com a sorte.
«Ficou com um problema no fígado depois da quimio? Ha quem não fique.» «Fez um seroma? Pode acontecer a qualquer uma que tire grande massa, mama e gânglios.» «Fez encapsulamento da prótese, linfedema, queimaduras? São consequências possiveis da rádio, não se pode prever.» «Engordou 20 quilos com o Tamoxifen? Há quem não engorde... E teve de fazer várias raspagens ao útero? Bom há mulheres que só têm afrontamentos e perda da libido, nunca se sabe como cada uma reage. Foi azar.»
Para um protocolo de tratamentos baseados na ciência, este (quimio/cirurgia/radioterapia/terapia anti-hormonal) deixa muito à sorte.... 


Não seria óptimo que com um dossier de informação clínica com os antecedentes do paciente o médico dissesse: «no seu caso que tem artroses, o problema pode agravar-se» ou «tem níveis de açucar altos vai engordar» ou «tem tendência para miomas e fibroses pode fazer encapsulamento da prótese mais facilmente». Seria óptimo que nos dessem as probabilidades de ganharmos ou perdermos. Que nos preparassem para a quase inevitável perda de qualidade de vida que o tratamento clássico implica. Para perder na lotaria.
Por onde anda a ciência quando é necessária? Porque não encontraram ainda um método pré-cirúrgico de saber quais os gânglios afectados poupando assim os restantes, evitando um esvaziamento axilar com o consequente linfedema para tantas? Porque não criaram um medicamento que substitua o Tamoxifen, destruidor de vidas e lares, introduzido no mercado em 1978, velho papão com barbas. Talvez porque este tipo de pesquisa não interessa à Big Pharma que financia muita da investigação. Aos laboratórios não interessa que eu fique com mais ou menos gânglios - se fizer linfedema mais medicamentos vou gastar, de mais cuidados médicos vou precisar. Quanto ao Tamoxifen, gera milhões - porquê matar a galinha dos ovos de ouro introduzindo um medicamento natural baseado na romã ou na amora?
A lotaria do cancro vai continuar com a ciência (apoiada nos laboratórios) a ajudar pouco em aspectos que podia prever.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Maldito seroma



Quatro dias depois da cirurgia e quando só estava em casa há dois dias, tiraram-me os drenos. Desde ai que o maldito seroma não me larga.
A radioterapia deve começar, idealmente, na quinta semana após a cirurgia. Nalguns casos o adiamento pode ir até à oitava semana. No meu caso essa data já passou a 1 de Fevereiro (fui operada a 7 de Dezembro) mas como não me podem fazer os tratamentos de rádio com seroma, a espera continua.
O seroma é líquido linfático  que não é absorvido e se acumula na axila. Quanto maior a massa tirada (como por exemplo na mastectomia radical modificada que é o meu caso) mais probabilidade existe de se desenvolver. Mas nem sempre acontece. Segundo os médicos, a enfermeira que me trata e estudos que li, não existe nada que possa ajudar a prever o seroma a não ser a quantidade de massa tirada (mastectomia e esvaziamento axilar deixam-nos mais perto do prémio nesta lotaria injusta).
Também não há nada para o precaver ou curar: a faixa de elástico por cima do peito nada faz e há estudos que mostram que essa técnica já nem devia ser usada. Uso-a apenas para dar um pouco mais de suporte ao peito quando faço esforços (carregar sacos, estender roupa e fazer outras coisas que sei que não devia fazer) mas quando o seroma é muito só aumenta a dor.
Um médico da urgência disse que em relação ao seroma a única coisa a fazer é pôr a literatura em dia – ficar no sofá a relaxar. Se tivesse seguido o conselho, nestes dois meses já tinha esgotado a Biblioteca Nacional. A enfermeira que me drena o seroma duas ou três vezes por semana diz que ficar quieta é mau – compromete a articulação do ombro e a mobilidade. É das minhas – eu se ficasse quieta com todos os problemas musculo esqueléticos que tenho ficava entrevada, como bem diz o meu osteopata.
Por isso, apesar do seroma, lá vou hoje recomeçar a ir ao ginásio.
E como o seroma passou de 110cc há duas semanas para 60cc ontem e nada é para sempre (nem eu) pode ser que o danado esteja a estrebuchar e me deixe seguir com a minha vida.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Interrogações e decisões difíceis



Para mim o pior do cancro tem sido a tomada de decisões. São opções importantes que vão influenciar a minha saúde futura e mesmo quiçá, a minha sobrevivência. Fazer ou não a quimioterapia; deixar que nos façam uma reconstrução imediata usando o músculo dorsal ou pedir a reconstrução em várias fases recorrendo a um expansor (o que eu fiz); fazer rádio 3D CRT ou IMRT; aceitar ou não a terapia anti-hormonal.
São decisões que apenas me competem a mim. Para tal tenho de ter o máximo de informação possível sobre os prós e os contras, sobre todo o processo.
No hospital público onde estou a ser tratada geralmente não tenho obtido informação suficiente por parte dos médicos. Em relação à cirurgia, tudo se atrasou semanas porque me apresentaram, em cinco minutos, a reconstrução usando o músculo dorsal como a melhor opção e eu recusei (fui atropelada e tenho sérios problemas na zona dorsal). Tive de procurar informação sobre as técnicas de reconstrução, falar com mulheres que optaram por uma ou outra (se bem que nalguns casos não tiveram muito a dizer) e ir a consultas de segunda opinião.
Relativamente ao famigerado Tamoxifeno continuo a procurar informação e alternativas.
No hospital público usam a técnica de Radioterapia Conformacional (3D CRT) e no privado propuseram-me a Radioterapia por Intensidade Modelada (IMRT). E agora? Que fazer? (ver post seguinte).
São muitas decisões a tomar – fora as outras, as relativas ao trabalho, por exemplo – que nos deixam num estado de nervos que não beneficia a cura.
É preciso informação para melhor as tomar.
Não se esqueçam: a decisão final é sempre vossa, não dos médicos. E notem: o que funcionou para uma amiga, ou para outras mulheres não funcionará necessariamente para vós.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Um emprego a tempo inteiro com horas extra





Gostaria de escrever este blog todos os dias, tanto mais que o iniciei já tarde neste processo. Quero deixar aqui testemunho e informação com referência para links académicos e de investigação sobre o diagnóstico e o tratamento do cancro da mama. Porém, há dias em que não sobra muito tempo ou disposição para escrever.
Quando iniciei o processo de diagnóstico foi a loucura porque estava a dar aulas no Porto ao mesmo tempo (vivo em Lisboa). Preparava as aulas e via os trabalhos dos alunos nas filas de espera para as análises, biopsias, ecografias, radiografias…
Durante essa fase não tive disponibilidade para procurar informação sobre a doença, ou sequer para pensar na minha própria mortalidade. Antes da cirurgia foi o stress total: não me foi dada informação suficiente sobre as opções de reconstrução e passei semanas a fazer buscas na net, a pedir testemunhos aamigas e conhecidas e segundas opiniões médicas.
Agora, pós-cirurgia (mastectomia radical), continuo a produzir grandes quantidades de seroma, líquido linfático que tem de ser drenado no hospital duas, três vezes por semana. Uma vez que fiz uma tendinite no ombro direito (e já tinha uma no esquerdo) impôs-se a fisioterapia três vezes por semana. Juntamente com as consultas, e as deslocações isto é como um emprego a tempo inteiro com horas extra!
Se tiverem um emprego das 9 às 5 talvez se aguentem a trabalhar durante este processo.
A quimio, foi para mim o tempo mais calmo (se bem que com semanas impossíveis) e quem tenha um emprego menos exigente a nível de calendário e viagens conseguirá, possivelmente, trabalhar. Quanto a mim, digo adeus ao segundo semestre de aulas: a radioterapia, que é diária durante cinco semanas, não começará antes de meados de Fevereiro o que quer dizer que não acaba antes dos idos de Março (a meio do semestre).
É difícil fazer planos durante este processo de tratamento do cancro da mama.