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quarta-feira, 8 de março de 2017

O argumento pela radioterapia

Estou a ler um estudo (financiado, entre outras instituições, pela Cancer Research UK e publicado em 2014) que mostra que tanto as recidivas (a dez anos) como a mortalidade (a 20 anos) são menores para as mulheres que se submeteram a radioterapia.
Por exemplo, comparando as mulheres mastectomizadas com um a três gânglios afectados (o meu caso) que fizeram radio com as que não o fizeram: a recorrência local foi de menos 16 por cento; a primeira recorrência (a 10 anos) foi de menos 11.5 por cento e a mortalidade foi de menos 7.9 por cento (ou fim de 20 anos). Para as mulheres com mais de quatro gânglios afectados os números são semelhantes. Porém, para as mulheres mastectomizadas sem gânglios afectados a radioterapia não teve qualquer significado a nível das variantes acima descritas, ou seja não é necessária.
Tatuaram-me o peito há três semanas e tenho a radioterapia marcada para dia 13 de Março. Contudo, depois de mais de dois meses de atraso devido ao seroma, um quisto parece vir atrasar ainda mais o tratamento. Será um sinal dos céus? 

Cartoon de Randall Munroe em xkcd.com

segunda-feira, 6 de março de 2017

Radioterapia ao fim de três meses - que risco de recidiva?



Amanhã faz três meses que fui submetida à mastectomia radical modificada. Mama e mamilo removidos, três gânglios positivos dos 12 retirados. Por causa do seroma (que só diminuiu para 10 cc há pouco mais de uma semana) não pude iniciar a radioterapia que era suposto acontecer cinco a oito semanas depois da operação.
Há uns minutos a radiologista telefonou-me a marcar para dia 13 de Março o início da radioterapia, por cinco semanas, todos os dias. Perguntei-lhe se ainda valia a pena, se três meses depois seria efectiva e disse-me que sim. Perguntei-lhe ainda em que percentagem diminuiria a possibilidade de recorrência local mas não me soube dizer, não sei se entendeu a questão. Depois de ter optado pela radioterapia tradicional 3D (em vez da modelada, que seria no hospital privado) continuo com muitas dúvidas: vale a pena arriscar a minha saúde (a da minha tiróide, por exemplo, uma vez que tive hipertiroidismo) para reduzir a possibilidade de recorrência local (e eventualmente distante, uma vez que se tiver células cancerígenas localmente podem «viajar»)?
Depois do seroma fiquei com um nódulo fibroso de dois cm de diâmetro que me tolhe os movimentos e pode vir a causar linfedema. Irá a radiação aumentar essa possibilidade?
Procurei informação que me permitisse compreender o que ganho com a radiação, ou seja em que percentagem diminuem as possibilidades de recorrência no meu caso. Se for menos de dez por cento penso que não vale a pena arriscar. Encontrei um calculador da Universidade do Texas para mulheres com mais de 65 anos. Penso que esta ferramenta foi desenhada pelo facto de após essa idade a utilização da radiação ter que ser muito reflectida devido aos efeitos secundários. Mas não encontrei nada para mulheres mais novas…
Existe, no entanto, o MamaPrint, teste genómico que avalia o risco de recidiva, já referido no post anterior e que foi notícia em Portugal há um ano (se me tivesse informado em vez de trabalhar como uma louca quando descobri o cancro em Maio do ano passado talvez me tivesse salvo da quimio). Com base na percentagem de risco desse teste pode-se evitar a quimio e/ou radio. O Mindact, um estudo baseado no teste permitiu perceber que metade das mulheres que fizeram quimio o poderiam ter evitado. O problema é que custa três mil euros na Fundação Champalimaud e no hospital público só o fazem a algumas (a maioria das utentes nem deve saber o que é para o poder exigir). Talvez a mim me tivesse salvo desta menopausa súbita e incapacitante.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Maldito seroma



Quatro dias depois da cirurgia e quando só estava em casa há dois dias, tiraram-me os drenos. Desde ai que o maldito seroma não me larga.
A radioterapia deve começar, idealmente, na quinta semana após a cirurgia. Nalguns casos o adiamento pode ir até à oitava semana. No meu caso essa data já passou a 1 de Fevereiro (fui operada a 7 de Dezembro) mas como não me podem fazer os tratamentos de rádio com seroma, a espera continua.
O seroma é líquido linfático  que não é absorvido e se acumula na axila. Quanto maior a massa tirada (como por exemplo na mastectomia radical modificada que é o meu caso) mais probabilidade existe de se desenvolver. Mas nem sempre acontece. Segundo os médicos, a enfermeira que me trata e estudos que li, não existe nada que possa ajudar a prever o seroma a não ser a quantidade de massa tirada (mastectomia e esvaziamento axilar deixam-nos mais perto do prémio nesta lotaria injusta).
Também não há nada para o precaver ou curar: a faixa de elástico por cima do peito nada faz e há estudos que mostram que essa técnica já nem devia ser usada. Uso-a apenas para dar um pouco mais de suporte ao peito quando faço esforços (carregar sacos, estender roupa e fazer outras coisas que sei que não devia fazer) mas quando o seroma é muito só aumenta a dor.
Um médico da urgência disse que em relação ao seroma a única coisa a fazer é pôr a literatura em dia – ficar no sofá a relaxar. Se tivesse seguido o conselho, nestes dois meses já tinha esgotado a Biblioteca Nacional. A enfermeira que me drena o seroma duas ou três vezes por semana diz que ficar quieta é mau – compromete a articulação do ombro e a mobilidade. É das minhas – eu se ficasse quieta com todos os problemas musculo esqueléticos que tenho ficava entrevada, como bem diz o meu osteopata.
Por isso, apesar do seroma, lá vou hoje recomeçar a ir ao ginásio.
E como o seroma passou de 110cc há duas semanas para 60cc ontem e nada é para sempre (nem eu) pode ser que o danado esteja a estrebuchar e me deixe seguir com a minha vida.